França/Vacinas contra gripe podem ser mais eficazes contra transmissão, mostra novo estudo
(ANG) – Uma pesquisa recente publicada na revista Nature Communication, de coautoria do cientista francês Simon Cauchemez, do Instituto Pasteur, em Paris, mostrou que é possível desenvolver no futuro vacinas contra a gripe capazes de reduzir a propagação do vírus.
“O vírus da gripe muta sem parar, evolui e muda todos os anos. Isso faz com que nosso sistema imunológico tenha dificuldade em reconhecê-lo corretamente. Quando somos vacinados, estamos protegidos contra o vírus que está circulando naquele ano, mas esse vírus vai evoluindo progressivamente”, explica o pesquisador em epidemiologia, que coordena a Unidade de Modelagem Matemática de Doenças Contagiosas do Instituto Pasteur.
“De um ano para outro, há vários tipos de vírus da gripe em circulação e diversos alvos terapêuticos possíveis. Às vezes a escolha não é certa. Por isso é difícil desenvolver vacinas que funcionam bem contra todos os vírus gripais que podem nos afetar”, completa.
O estudo do Instituto Pasteur foi realizado em parceria com a Universidade de Michigan, nos EUA, e financiado pelos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). De acordo com Simon Cauchemez, a obtenção de imunizantes mais eficientes passa pelo “tipo de resposta imunitária que estamos buscando com a vacina”, que deve ser capaz de identificar diferentes proteínas do vírus para gerar anticorpos.
O vírus da gripe possui duas principais proteínas na superfície: a hemaglutinina (HA), uma glicoproteína que permite que ele se prenda às células, e a neuraminidase (NA), que permite ao micro-organismo se liberar da membrana da célula hospedeira para se replicar.
A pesquisa se concentrou na ação da NA e mostrou que os anticorpos que o corpo desenvolve contra essa proteína podem não só diminuir o risco de contágio, mas também de transmissão.
“Na verdade, dois tipos de impacto nos interessam. O primeiro é: quando temos anticorpos contra uma dessas proteínas, ficamos menos propensos a sermos infectados pela gripe? Ou seja, estamos individualmente protegidos contra a gripe?”, questiona. “Essa é uma questão fundamental, claro. Mas, mesmo que a gente acabe se contaminando, será que transmitimos menos a gripe para as pessoas ao nosso redor?”.
De acordo com a pesquisa, seria necessário integrar anticorpos contra a NA nas vacinas. Para chegar a essa conclusão, o cientista francês analisou os dados obtidos pela equipe americana da Universidade de Michigan junto a 171 famílias nicaraguenses e seus 664 contatos, nos anos de 2014, 2016 e 2017.
A maior parte dos participantes nunca tinha sido vacinada contra a gripe, o que permitiu aos pesquisadores observar como ocorria a transmissão após a infecção. Os cientistas identificaram quais anticorpos eram mais eficazes para limitar a propagação, após realizar análises de sangue, testes virológicos e modelagens matemáticas.
“Para cada indivíduo do domicílio, conseguimos ver que tipo de anticorpos ele tinha no início da epidemia e observar em que medida, graças a esse acompanhamento, esses anticorpos protegeram ou não a pessoa da infecção e, caso tenham sido contaminadas, protegeram ou não seus contatos.”
De acordo com o cientista, os dados são raros porque mostram em detalhes como os anticorpos afetam as diferentes proteínas do vírus e de que forma influenciam a infecção e a transmissão.
“O que vemos é que não temos apenas uma medida dos anticorpos contra a gripe de forma geral, mas realmente uma medida que foca em diferentes partes do vírus. Assim, podemos quantificar o efeito de cada um desses anticorpos sobre o risco de infecção e sobre o risco de transmissão. A longo prazo, o objetivo é, obviamente, orientar os esforços para desenvolver vacinas contra a gripe mais eficazes”, conclui o cientista francês.ANG/RFI