Vaticano/Argélia, Camarões, Angola, Guiné Equatorial: a primeira viagem do Papa Leão XIV a África
(ANG) – O Papa Leão XIV efectua, de 13 a 23 de Abril, a sua primeira grande digressão internacional por quatro países de África: Argélia, Camarões, Angola e Guiné Equatorial.
Diálogo com o islão, paz, respeito pelos recursos naturais, combate às desigualdades, direitos humanos: a viagem, muito aguardada, abordará temas variados, num contexto internacional marcado pela guerra no Médio Oriente, onde a Santa Sé tenta influenciar a cena diplomática.
Com cerca de 18.000 quilómetros, 11 discursos, sete missas e uma dezena de cidades visitadas, esta digressão a um ritmo frenético tem contornos de maratona para o Papa norte-americano de 70 anos.
África é o continente que regista o maior crescimento de católicos no mundo, com 280 milhões de fiéis e uma forte dinâmica espiritual. Mas a Igreja Católica enfrenta a concorrência das igrejas pentecostais e de evangélicas. Trata-se de um continente rico em recursos naturais, marcado por tensões e desigualdades políticas e económicas. Um tema caro a Leão XIV, muito ligado à justiça social.
Em primeiro lugar, a Argélia (13-15 de Abril), um país 99% muçulmano que recebe um Papa pela primeira vez. Leão XIV irá encontrar-se com a pequena comunidade católica do país.
O diálogo inter-religioso estará no centro desta etapa: Leão XIV visitará, nomeadamente, a Grande Mesquita de Argel, prestará homenagem a figuras da memória argelina e reunir-se-á com o presidente Abdelmadjid Tebboune.
Leão XIV deslocar-se-á também a Annaba (leste), antiga Hipona, nos passos de Santo Agostinho, grande pensador da cristandade cujo legado espiritual alimenta o seu pontificado.
O Sumo Pontífice vai, igualmente, recolher-se em privado na capela dos 19 “mártires da Argélia”, padres e religiosas assassinados durante a guerra civil (1992-2002), nomeadamente os monges de Tibhirine.
Em entrevista à RFI, Dom José Manuel Imbamba, arcebispo de Saurimo (leste de Angola) e presidente da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe (CEAST), sublinhou que a Igreja Católica assume uma dimensão universal e inclusiva. “A Igreja Católica é universal. A Igreja Católica é para todos e está aberta a todos”, destacando que o diálogo entre religiões faz parte da própria identidade da Igreja: “este diálogo inter-religioso é um caminho que a Igreja nunca desperdiçou e nunca pôs de lado”.
A visita à Argélia ganha, segundo o arcebispo de Saurimo, um significado adicional pela ligação histórica e espiritual a Santo Agostinho de Hipona, figura central do pensamento cristão e referência para a ordem agostiniana a que o Papa pertence. “É uma das cidades que o Papa logicamente visitará para realimentar-se da espiritualidade daquele santo e assim poder animar o seu pastoreio”.
Para Dom José Manuel Imbamba, esta ligação histórica reforça a dimensão espiritual da deslocação e sublinha a continuidade da tradição cristã no território argelino. Ao mesmo tempo, a presença do Papa num país de maioria muçulmana é vista como um gesto de abertura e aproximação entre religiões. “A Igreja não esquece as minorias. A Igreja está sempre pelas minorias, pelos mais desfavorecidos”.
Nos Camarões (15-18 de Abril), país bilingue e multiconfessional de maioria cristã, que já recebeu três visitas papais, o Papa Leão XIV coloca a sua viagem pastoral sob o signo da paz e da reconciliação, sobretudo em Bamenda, uma das regiões anglófonas onde o conflito entre separatistas e o Estado dura há 10 anos.
A etapa mais simbólica terá lugar a 16 de Abril, com a deslocação sob forte segurança a Bamenda, onde Leão XIV irà proferir um discurso e celebrar uma missa.
Neste país onde cerca de 37% dos 30 milhões de habitantes são católicos, a Igreja desempenha um papel de mediação e gere uma vasta rede de hospitais, escolas e obras de caridade, uma alavanca de influência que a Santa Sé pretende consolidar.
Antes de celebrar uma missa no estádio de Douala, capital económica, bem como na capital Yaoundé, Leão XIV será recebido pelo presidente Paul Biya, de 93 anos, um dos mais antigos chefes de Estado do mundo.
O clero camaronês, que goza de alguma influência na cena política, tem-se mostrado por vezes muito crítico em relação ao presidente, no poder desde 1982.
Em Angola (18-21 de Abril), país lusófono onde o catolicismo está profundamente enraizado, a visita deverá pôr em evidência as temáticas sociais defendidas por Leão XIV: um país rico em petróleo e minerais, mas marcado por profundas desigualdades, onde cerca de um terço da população vive abaixo do limiar internacional de pobreza. Leão XIV deverá insistir na gestão equitativa dos recursos e no combate à corrupção.
O Papa deslocar-se-á à capital Luanda, nas margens do Oceano Atlântico, símbolo de contrastes onde coexistem bairros de luxo e bairros de lata, bem como ao santuário mariano de Muxima, principal local de peregrinação nacional, e ainda a Saurimo (leste).
Em entrevista à RFI, o analista político Osvaldo Mboco, sublinha que a deslocação do Papa Leão XIV a Angola, com passagem por Saurimo, leste do país, é vista como um momento de forte simbolismo social e político, para além da dimensão religiosa.
“Nós sabemos que a Igreja tem um papel muito importante, que é primeiro, da pacificação dos espíritos e também um papel importante na defesa dos pobres e dos oprimidos.”
A visita do Papa surge, assim, como uma oportunidade para reforçar essa missão, sobretudo em territórios onde o desenvolvimento económico não se traduz necessariamente em melhores condições de vida para as populações. “É claro que o nível de desenvolvimento de Saurimo inspira cuidado e que nos remete a uma reflexão da necessidade de continuarmos a trabalhar”, afirmou.
Segundo Osvaldo Mboco, este problema não é isolado. “Esta realidade não é simplesmente ao nível de Saurimo, mas também em outras províncias, como Cabinda, por exemplo, que é uma das localidades onde mais se extrai petróleo”.
Para o analista, a presença do Papa nestas zonas tem também um significado político e institucional. “A ida do Papa à Saurimo, para além da comunidade católica que lá reside, também passa essa mensagem da necessidade de melhor se trabalhar e melhor se estabelecer algumas metas para o desenvolvimento e crescimento dessa mesma província.”
Por fim, na Guiné Equatorial (21-23 de Abril), que conta com cerca de 90% de católicos, o Papa pretende apoiar os fiéis sem, no entanto, legitimar o regime autoritário e repressivo no poder desde 1979.
Quarenta e quatro anos depois, Leão XIV seguirá os passos de João Paulo II, o único Papa a ter pisado o solo deste pequeno país da África Central, governado por Teodoro Obiang Nguema. Aqui o Papa terá de manter um equilíbrio delicado: apoiar os fiéis sem, contudo, ser visto como um apoio ao regime, frequentemente acusado de derivas autoritárias.
Na antiga capital Malabo, na ilha de Bioko, Leão XIV encontrará representantes do mundo da cultura, bem como pessoal e doentes de um hospital psiquiátrico. Deslocar-se-á igualmente ao reduto natal do presidente Obiang, em Mongomo (leste).ANG/RFI