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Portugal/Inaugurado centro sobre Salazar e reabre debate sobre a memória da ditadura

Portugal/Inaugurado centro sobre Salazar e reabre debate sobre a memória da ditadura

(ANG) – É possível criar um centro sobre um ditador sem transformá-lo em homenagem? Essa é a pergunta que acompanha a abertura, nesta sexta-feira (23), do Centro Interpretativo do Estado Novo – Regime e Resistência, instalado em Santa Comba Dão, cidade natal de António de Oliveira Salazar, o homem que governou Portugal com mão de ferro durante quase quatro décadas.

O novo centro funciona em uma antiga escola da década de 1940 em Vimieiro, no município de Santa Comba Dão, na região central do país.

O edifício fica próximo à casa onde Salazar nasceu e a poucos quilómetros do cemitério onde está enterrado.

Segundo a prefeitura, o objetivo não é glorificar nem demonizar o antigo dirigente, mas estudar o regime que ele liderou e a resistência que enfrentou.

Ainda assim, o projeto gerou mais de vinte anos de controvérsias, alimentadas pelo temor de que o local atraia admiradores da ditadura ou contribua para reabilitar a imagem do ditador.

O espaço conta com biblioteca, exposição permanente e uma sala de aula recriada para retratar o quotidiano do período. Também receberá exposições temporárias, debates, mesas-redondas e conferências.

Cinquenta e dois anos após a Revolução dos Cravos derrubar a ditadura mais longa da Europa Ocidental, Portugal continua debatendo como lidar com seu passado autoritário.

 

“Não queremos um museu para glorificar Salazar, nem um lugar onde se fale mal da figura central” do regime, afirmou a perfeita de Santa Comba Dão, Inês Matos, à agência Lusa.

“Queremos um espaço aberto a todos”, onde “cada um possa estudar, conhecer, realizar pesquisas e debater”, acrescentou.

O vice-presidente da Câmara Municipal de Santa Comba Dão, Luís Nunes, afirmou à Lusa que a intenção é estudar “não só o regime, mas também a resistência ao regime”.

Ele ressaltou que o ditador não será ocultado da narrativa histórica, mas que tampouco se pretende construir um museu dedicado à sua glorificação.

Salazar chegou ao poder em 1932, na sequência do golpe militar de 1926, e criou o Estado Novo, um regime autoritário marcado pela censura, pela polícia política e pela repressão aos opositores.

Não há consenso entre os historiadores sobre o número total de mortos atribuíveis ao regime.

Sabe-se, contudo, que dezenas de milhares de pessoas foram presas por motivos políticos, que opositores morreram em consequência da repressão e que, se forem consideradas as guerras coloniais travadas na África, o saldo humano alcança muitas dezenas de milhares de vítimas.

Para os defensores do projeto, ignorar Salazar seria uma forma de apagar parte da história portuguesa. Para seus críticos, existe o risco de transformar a cidade natal do ditador em um local de peregrinação para nostálgicos do regime.

Portugal já conta com outros locais dedicados à preservação da memória desse período histórico. Entre eles estão o Museu do Aljube – Resistência e Liberdade, instalado em uma antiga prisão política em Lisboa, e a Casa Aristides de Sousa Mendes, dedicada ao diplomata que salvou milhares de refugiados das perseguições nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

ANG/RFI/AFP

 

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