Hungria/ Peter Magyar impõe derrota histórica a Viktor Orbán
(ANG) – O conservador Peter Magyar, que já fez parte do partido no poder, impôs, este domingo, uma pesada derrota à hegemonia de 16 anos de Viktor Orbán.
O partido Tisza conseguiu mais de dois terços dos lugares no parlamento da Hungria, ou seja, uma maioria absoluta com 138 dos 199 assentos parlamentares (53,07% dos votos), enquanto o Fidesz de Viktor Orbán obteve 55 lugares (38,43%).
Foi uma participação histórica para um resultado também histórico. Os eleitores acorreram em massa às urnas para um número recorde (79,50%) em qualquer eleição na história pós-comunista da Hungria. Depois da divulgação dos resultados, as ruas de Budapeste encheram-se com festejos da vitória de Peter Magyar e da derrota de Viktor Orbán.
O futuro primeiro-ministro da Hungria, Peter Magyar, um jurista de 45 anos praticamente desconhecido até 2024, pôs fim à hegemonia de 16 anos do primeiro-ministro ultranacionalista Viktor Orbán.
A vitória foi conseguida graças à sua retórica conservadora e anticorrupção que canalizou o descontentamento húngaro. Porém, Magyar veio das fileiras do Fidesz de Viktor Orbán, com quem rompeu, em Fevereiro de 2024.
No discurso de vitória, Peter Magyar disse que o seu partido “libertou a Hungria”, falou em “vitória esmagadora”, prometeu que a Hungria será “um forte aliado da União Europeia e da NATO” e disse que os húngaros votaram “Sim” pela Europa.
Magyar anunciou que as suas primeiras viagens ao estrangeiro como novo chefe de governo o vão levar a Varsóvia, na Polónia, Viena, na Áustria e Bruxelas, na Bélgica.
Quanto ao primeiro-ministro cessante, num breve discurso no seu comité de campanha, Viktor Orbán reconheceu a derrota nas eleições legislativas e falou em resultado “doloroso, mas inequívoco”.
Orbán era o líder que há mais tempo governava um país na União Europeia e era também um dos seus maiores antagonistas, contando com o apoio dos presidentes norte-americano, Donald Trump, e russo, Vladimir Putin. Agora, promete que vai “servir o país também na oposição”.
Vários líderes europeus felicitaram Magyar. Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, foi uma das primeiras, no X, onde escreveu que a “Hungria escolheu a Europa”. Também António Costa, presidente do Conselho Europeu, disse estar “ansioso por poder trabalhar em estreita colaboração com Peter Magyar”, e Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu, declarou que “o lugar da Hungria é no coração da Europa”.
Também Volodymyr Zelensky celebrou a vitória de Magyar contra as posições declaradamente hostis de Viktor Orbán, o qual, por exemplo, bloqueou recentemente um empréstimo de 90 mil milhões de euros para ajudar a Ucrânia e conseguiu atrasar a aprovação de vários pacotes de sanções europeias contra a Rússia.
Porém, como Orbán, Magyar rejeita o envio de armas para a Ucrânia e é contra uma integração rápida do país na União Europeia. Entretanto, do lado da Rússia, o porta-voz da presidência, Dmitri Peskov, disse esperar “continuar os contactos pragmáticos com as novas autoridades”.
Não houve, até agora, nenhuma reacção da Casa Branca. Recorde-se que o vice-presidente J. D. Vance tinha viajado até Budapeste para participar na campanha de Orbán na última semana.
Peter Magyar era totalmente desconhecido da opinião pública até ao início de 2024, quando se virou contra Viktor Orbán e deixou o seu partido Fidesz.
A ruptura ocorreu depois do perdão concedido a um homem condenado por encobrir crimes de pedofilia, o que levou a sua ex-esposa, Judit Varga, que era ministra da Justiça, a apresentar a demissão. Foi então que o novato em política relançou um partido esquecido, o Tisza, e prometeu “desmantelar o sistema implementado por Viktor Orbán”, do qual fazia parte até há pouco tempo e que desmontou com acusações de corrupção.
Comunicador hábil nas redes sociais e no terreno, a ascensão foi fulgurante e paralela às promessas de mudança total e ao descontentamento do eleitorado. Em Junho de 2024, o seu partido obteve 30% dos votos nas eleições europeias, terminando em segundo lugar atrás do Fidesz e esmagando o resto da oposição.
À medida que a sua popularidade aumentava, surgiram acusações de violência doméstica da parte de Judit Varga de quem se divorciou em 2023 e que tinha conhecido nos tempos em que estudava Direito e em que também se tornou amigo de Gergely Gulyas, o actual chefe de gabinete de Orbán.
Com 45 anos, oriundo de uma família de conservadores influentes, Peter Magyar apresenta-se como conservador, defensor da família, da nação e do cristianismo. Promete melhorar os serviços públicos como a saúde e a educação e lutar contra a corrupção.
Ao contrário de Orbán, diz querer restaurar a confiança nas instituições da União Europeia, promete desbloquear ajudas europeias e diz que a Hungria será “um forte aliado da União Europeia e da NATO”.
Como Orbán, ele rejeita o envio de armas para Ucrânia e opõe-se a uma integração rápida deste país na União, mas não tem a mesma retórica hostil contra Kiev. Sobre a imigração, tem posições bastante próximas de Orbán e sobre os direitos LGBT+, atacados pelo antecessor, mostra-se vago. Por isso, há analistas que alertam que o resultado destas legislativas pode não significar o início do fim do populismo. ANG/RFI