Médio Oriente/Irã anuncia rotas alternativas no Estreito de Ormuz e avalia criar ‘pedágio’ com aval de Trump
(ANG) – A Marinha da Guarda Revolucionária do Irã anunciou nesta quinta‑feira (9) que navios que atravessam o Estreito de Ormuz devem utilizar duas rotas alternativas, próximas à costa iraniana, para evitar a presença de possíveis minas no trajeto habitual.
“Para proteção contra eventuais colisões com minas, em coordenação com a Marinha da Guarda Revolucionária, até nova ordem os navios deverão adotar rotas alternativas para a navegação no Estreito de Ormuz”, informaram meios de comunicação estatais iranianos.
A imprensa oficial citou um comunicado militar acompanhado de um mapa náutico que indica novos itinerários ao sul e ao norte da ilha de Larak. Para entrar no golfo a partir do mar de Omã, as embarcações devem passar entre a costa iraniana e a ilha de Larak.
A rota de saída do golfo contorna o sul da ilha e evita o trajeto tradicional, mais próximo da costa de Omã. Passagens recentes indicam o uso desse itinerário alternativo dentro das águas territoriais iranianas.
Teerã avalia a criação de um mecanismo semelhante a um pedágio para a travessia do Estreito de Ormuz . “Há e haverá uma taxa de passagem”, afirmou ao jornal francês Le Monde uma fonte diplomática iraniana, em reportagem publicada nesta quinta‑feira.
Segundo o Financial Times, o governo iraniano pretende cobrar US$ 1 (0,86 euro) por barril transportado por Ormuz, com pagamento em criptomoeda. Questionado na quarta‑feira (8) por um jornalista da rede ABC sobre a cobrança, o presidente americano, Donald Trump, disse concordar com a ideia e chegou a sugerir a criação de uma empresa comum para repartir os dividendos com o Irã.
“É algo bonito”, afirmou. Segundo ele, a iniciativa poderia “proteger” o Estreito, em provável referência à China, grande compradora de petróleo iraniano.
De acordo com o Le Monde, Teerã teria negociado a proposta com o sultanato de Omã. “Mascate informou que manteve conversas com o Irã sobre ‘opções possíveis para garantir uma passagem fluida’ e que as propostas serão analisadas”, declarou Abdullah Baabood, professor omanense especializado em relações internacionais ao Le Monde.
Segundo ele, isso não significa a “aprovação de uma reformulação permanente do Estreito pelo Irã” e a criação de um pedágio formal e permanente seria inviável. Mas o Irã poderia impor, no curto prazo, uma forma de controle de fato da passagem.
Entre 1º de março e 7 de abril, foram registrados 307 trânsitos de navios transportando commodities, segundo dados da Kpler, empresa proprietária do site MarineTraffic — queda de cerca de 95% em comparação com períodos de normalidade.
Em condições habituais, aproximadamente 20% do petróleo bruto e do gás natural liquefeito (GNL) consumidos no mundo passam pelo Estreito, que liga o Golfo Pérsico às principais rotas marítimas globais. Os Estados Unidos e o Irã chegaram a um acordo de cessar‑fogo na noite de terça para quarta‑feira que para a reabertura do Estreito
A criação de um pedágio no Estreito de Ormuz seria “inaceitável”, declarou nesta quinta-feira o ministro das Relações Exteriores da França, Jean‑Noël Barrot, ao afirmar que a medida violaria o direito internacional.
“A liberdade de navegação em águas internacionais é um bem comum da humanidade, que não pode ser submetido a obstáculos ou taxas de passagem”, disse. “Ninguém aceitaria isso, simplesmente porque é ilegal. As águas internacionais são livres para a circulação de navios”, acrescentou o ministro.
A ministra britânica das Relações Exteriores, Yvette Cooper, também reafirmou a necessidade de livre circulação na passagem em seu discurso anual de política externa, previsto para esta quinta na Mansion House, em Londres.
“As liberdades fundamentais dos mares não podem ser retiradas unilateralmente nem negociadas. Não pode haver pedágio em uma via marítima internacional”, afirmou a chefe da diplomacia britânica, segundo trechos divulgados por sua assessoria.
A União Europeia rejeita qualquer ideia de “pedágio” para a travessia do Estreito de Ormuz, onde a liberdade de navegação deve ser mantida, também reagiu um dos porta‑vozes do bloco. “O direito internacional consagra a liberdade de navegação, o que significa exatamente isso: nenhum pagamento nem pedágio, qualquer que seja”, declarou o porta‑voz, Anouar El Anouni.
ANG/RFI/Com agências