Brasil/ Lula reeleito num país dividido e de um Congresso conservador
(ANG) – Lula Inácio da Silva assumirá um quarto mandato com um país dividido pela votação apertada, e com um Congresso conservador, uma vez que o Partido Liberal (PL), de Flávio Bolsonaro, tem a maioria dos assentos no Senado e na Câmara dos Deputados.
Para o futuro, e com os efeitos dos escândalos do Banco Master e da polarização no país, defende uma reforma no Judiciário: mandato para juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) brasileiro e alteração na forma de indicá-los ao cargo.
O ‘petista’ espera ainda, este ano, aprovar a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da Segurança Pública que cria regimes penais mais severos, e reformula as designações das entidades federativas e dos órgãos no combate ao crime organizado.
Há poucos dias, num sinal ao campo conservador, passou a defender também a diminuição da responsabilidade penal para menores de 16 anos, mas somente para crimes hediondos.
Maior nome do Partido dos Trabalhadores (PT), Lula da Silva passou as últimas semanas a dizer que o povo brasileiro teria de fazer uma escolha “entre democracia e soberania e, do outro lado, barbárie, negacionismo e retrocesso”.
O ‘petista’ governou no seu terceiro mandato (2022-2026) com uma base frágil no Congresso Nacional e usou como moeda de troca ministérios e cargos estratégicos, além de fazer negociações via Orçamento federal, a partir das emendas parlamentares.
Entre as conquistas do “Lula 3” estão a aprovação de Reforma Tributária e a redução da jornada de trabalho semanal, com dois dias de descanso.
Também acumulou derrotas, a maior delas a rejeição do nome indicado ao Supremo Tribunal Federal brasileiro, pelo Senado, um feito inédito em mais de 130 anos.
Ao longo desse mantado, declarou que está a reconstruir o Brasil, após acusar o bolsonarismo de destruir pontes diplomáticas e políticas públicas, além de acusá-lo de negligente pela não regulamentação das “bets” e vício da população nos casinos online.
Mesmo muito impopular entre os grandes empresários do agronegócio, e com a promessa de governar para todos, Lula elevou para valores recorde o Plano Safra, principal programa de financiamento do agronegócio brasileiro.
O líder de esquerda também lançou vários programas sociais no seu terceiro mandato, como incentivos financeiros para estudantes, renegociação e perdão de dívidas da população e pequenos empresários.
Por elevar os gastos públicos e pelos “pacotes de bondades” foi muito criticado por economistas e analistas do mercado financeiro, que apontam como consequência pressão inflacionária e juros alto.
No cenário internacional, o mandato “Lula 3” foi marcado pela retoma da diplomacia presidencial, quando passou a propagar o país em fóruns mundiais e agendas bilaterais com autoridades internacionais dizendo que “O Brasil estava de volta”.
Defensor do multilateralismo, visitou Estados Unidos, China, países da Europa e do Médio Oriente para abrir mercados e estreitar relações diplomáticas, em agendas que ficaram marcadas pelo humor, simpatia e informalidade com que se referia aos seus homólogos.
Crítico dos conflitos liderados por Israel e EUA, também visou o Conselho de Segurança da ONU, que apelidou de ineficiente e omisso.
Lula também colheu derrotas, ao fracassar na tentativa de criar um grupo da paz para acabar com a guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e fazer declarações polémicas sobre o conflito.
Na relação com os países vizinhos, retomou relações diplomáticas com a Venezuela, encerradas por Bolsonaro, e criou desgaste interno ao defender Nicolás Maduro, que depois criticou o ‘petista’, após o Governo brasileiro pedir transparência nas eleições venezuelanas de 2024.
Com o regresso de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, as relações diplomáticas entre Brasília e Washington degradaram-se com as tentativas de interferência do Presidente dos EUA na política interna do Brasil durante o julgamento que levou à condenação de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
A Casa Branca e o Palácio do Planalto tiveram uma série de embates após Washington sobretaxar produtos brasileiros como forma de retaliação e por os EUA classificarem as duas maiores fações criminosas do Brasil como organizações terroristas.
Com o discurso de defesa da soberania nacional, Lula da Silva e a esquerda brasileira passaram a usar as cores da bandeira do Brasil, como forma de resgatar símbolos “sequestrados pelo bolsonarismo”.
Vários escândalos marcaram o mandato “Lula 3”, em que um ministro foi demitido por assédio sexual, outro que passou a ser investigado pela Polícia Federal por suspeita de corrupção quando deputado federal, e demitiu um aliado histórico da chefia do Ministério da Previdência Social no âmbito do escândalo dos descontos indevidos de reformados e pensionistas.
A “Fraude do INSS”, que ocorreu de 2019 a 2024, atingiu a oposição, governantes, políticos de vários partidos, funcionários públicos, lobistas, sindicatos, entidades representativas e bancos.
O petista passou a dizer que “uma quadrilha se instaurou” no órgão federal, e, embora executivos da sua Administração tenham sido presos, que foi sob o seu governo que o esquema criminoso, que, diz, começou na gestão Jair Bolsonaro, foi descoberto e desmantelado.
Lula também viu o escândalo do Banco Master, liquidado pelo Banco Central brasileiro por fraude no sistema financeiro, não apenas atingir Flávio Bolsonaro e políticos influentes do chamado “Centrão”, mas respingar na imagem de aliados e do seu Governo.
A teia de contactos e relações do então banqueiro Daniel Vorcaro, pivô da crise e atualmente preso, atingiu alguns juízes do STF, com conversas suspeitas e negócios com familiares desses magistrados.
Lula também sofre desgaste com o facto de o seu filho mais velho, conhecido como Lulinha, ser alvo de três inquéritos da Polícia Federal por suposto tráfico de influência dentro do Governo. ANG/Inforpress/Lusa