Dia Mundial de Saúde Mental/ Centro de Saúde Mental regista 203 casos ligados ao consumo de álcool e drogas até Setembro
(ANG) – O Centro de Saúde Mental “Osvaldo Máximo Vieira”, registou, de Janeiro à setembro deste ano, 203 casos relacionados com o consumo de álcool e drogas.
A informação foi divulgada no passado fim de semana pela diretora da instituição, Finhamba Quessangue Silva, à margem da Conferência participativa realizada no Centro Cultural Franco-Bissau-Guineense, no âmbito da celebração do Dia Mundial da Saúde Mental, assinalado à 10 de Outubro.
O evento é destinado a sensibilizar a sociedade e os decisores políticos para os desafios relacionados com a saúde mental e a necessidade de mobilizar recursos para a prevenção e o tratamento.
Na ocasião, Finhamba Quessangue Silva alertou para o aumento dos problemas de saúde mental no país e defendeu o reforço dos serviços de assistência psicológica e psiquiátrica.
Disse que o Centro funciona apenas em regime ambulatório, sem condições para internar pacientes, devido à falta de infraestruturas adequadas, nomeadamente refeitório, lavandaria e espaços para separar doentes agressivos dos não agressivos.
Segundo a diretora, o Centro funciona das 9 às 14 horas e enfrenta várias dificuldades, entre as quais a insuficiência de recursos financeiros, a falta de profissionais especializados.
Finhamba disse que o país dispõe apenas de um médico psiquiatra, que trabalha no Hospital Militar, mas que colabora no atendimento do Centro.
Disse que a instituição conta ainda com dois psicólogos, enfermeiros e três médicos de clinica-geral.
Perante esta situação, Finhamba Quessangue defendeu a capacitação de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde, no dominio da saúde mental e apoio psicossocial, para permitir uma resposta às necessidades das comunidades e a redução da estigmatização das pessoas com perturbações mentais.
Quessangue da Silva diz ser necessária a descentralização dos serviços de saúde mental para as regiões e, sempre que possível, para os setores, e a integração destes cuidados nos serviços de saúde primários, de forma a facilitar o acesso ao tratamento e redução dos custos suportados pelos pacientes.
A diretora do Centro Mental “Osvaldo Máximo Vieira” apontou igualmente a falta de medicamentos como um dos principais constrangimentos enfrentados pela instituição.
Explicou que, a interrupção do fornecimento por parte do Centro de Comercialiação de Medicamentos Essenciais(CECOM), obriga o Centro a recorrer a fornecedores privados, que também enfrentam ruturas de stock, situação já levou a instituição a ficar cerca de um mês sem alguns medicamentos necessários para o tratamento dos pacientes.
Finhamba Quessangue , por essa razão, apela maior envolvimento do Ministério da Saúde Pública e do Governo na mobilização de recursos financeiros, e ainda a adopção de um orçamento específico para os cuidados de saúde mental.
No âmbito das estratégias de prevenção, disse que o Centro de Saúde Mental promove ações de sensibilização junto das comunidades, envolvendo agentes de saúde comunitária, líderes tradicionais e comunitários, associações juvenis.
Acrescentou que, a instituição desenvolve igualmente a iniciativa de visitas às escolas, através da qual os técnicos realizam palestras dirigidas aos professores e alunos sobre a saúde mental e o consumo de drogas.
A responsável destacou ainda a importância de combater as barreiras culturais e os mitos associados às doenças mentais, tais como a Epilepsia, uma doença que diz continuar a ser alvo de crenças erradas, incluindo a ideia de que é transmissível, o que, segundo diz, contribui para o isolamento dos pacientes e dificultar a procura de ajuda.
Segundo Finhamba Quessangue, as ações de sensibilização procuram demonstrar que os cuidados tradicionais podem coexistir com a medicina moderna, desde que seja garantido o acesso ao acompanhamento clínico adequado. “A Epilepsia não é uma doença transmissível”, disse.
Por sua vez, a psicóloga clínica e psicoterapeuta, Elisa Bidault referiu que a saúde mental deve ser compreendida de forma semelhante à saúde física, tendo em conta os diferentes níveis de sofrimento que uma pessoa pode enfrentar ao longo da vida.
A especialista distinguiu a saúde mental do sofrimento psicológico e da doença mental, esclarecendo que o sofrimento psicológico pode estar associado a situações como o luto, o stress no local de trabalho, os conflitos familiares e experiências traumáticas, incluindo a violência sexual e traumas vividos na infância.
“A doença mental corresponde a uma condição que requer avaliação clínica, diagnóstico e tratamento adequado”, disse.
Perguntada sobre os casos que chegam à sua clínica, apontou os relacionados com stress, ansiedade, luto e depressão, muitas vezes associadas a experiências dolorosas que as pessoas não conseguem ultrapassar.
A psicóloga referiu que recebe mais mulheres do que homens, considerando que o estigma em torno da saúde mental e a dificuldade de alguns homens em falar sobre os seus problemas podem contribuir para essa diferença.
Elisa Bidault acrescentou que a instituição acompanha pacientes de várias faixas etárias, desde crianças até idosos.
A especialista e a directora do Centro de Saúde Mental convergem na necessidade de reforçar a sensibilização pública, melhorar o acesso aos cuidados especializados e mobilização de recursos humanos e financeiros para responder aos desafios da saúde mental na Guiné-Bissau.ANG/LPG/ÂC//SG