EUA/Vinte e cinco anos depois, sobreviventes do 11 de Setembro ainda sofrem efeitos da exposição no Marco Zero
(ANG) – Aristide Economopoulos, fotógrafo e fotojornalista americano radicado na região metropolitana de Nova York que registou os ataques às Torres Gémeas, recebeu neste ano o diagnóstico de câncer de próstata.
Novos documentos mostram que vestígios de amianto ainda eram encontrados na área do World Trade Center dez meses após a tragédia.
De Jersey City, em Nova Jersey, pegou uma balsa em direção à região do World Trade Center. Coberto pela poeira dos escombros, registou com sua câmera cenas de uma manhã em que o céu do centro financeiro de Nova York foi tomado por uma enorme nuvem de fumaça, cinzas e destroços.
Pouco antes da queda da Torre Norte, Economopoulos encontrou outro fotógrafo que trabalhava na área. Os dois nunca haviam se visto antes. Ao saber que Aristide estava ficando sem filme, o colega lhe entregou um dos dois últimos rolos que ainda tinha.
Deu apenas um conselho: “Shoot smart” – algo como “fotografe com inteligência”, escolhendo cuidadosamente cada imagem. Pouco depois, os dois seguiram caminhos diferentes.
“Eu comecei a andar um pouco mais para o norte. Foi quando a Torre Norte desabou, e ele achou que eu tinha ficado soterrado nos escombros”, conta.
Os primeiros efeitos da exposição apareceram imediatamente. No dia do ataque, o fotógrafo sofreu lesões nos olhos provocadas pela poeira e os destroços.
“Eu perdi parcialmente a camada mais superficial da córnea do olho direito e tive uma lesão bem grave no olho esquerdo”, relata.
A visão ficou comprometida durante alguns dias. O impacto, no entanto, não foi apenas físico. Nos anos seguintes, Economopoulos também buscou ajuda profissional para lidar com o trauma provocado pelo que havia testemunhado.
Durante décadas, ele não procurou os programas de assistência destinados às pessoas afetadas pelo 11 de Setembro. Isso mudou neste ano, quando recebeu o diagnóstico de câncer de próstata.
A doença está entre os tipos de câncer associados à exposição no World Trade Center e cobertos pelo programa federal criado para acompanhar e tratar pessoas afetadas pelos ataques.
O câncer de pele não melanoma é o mais comum entre socorristas e civis expostos às substâncias tóxicas do Marco Zero, com 18.380 casos. Em seguida aparecem o câncer de próstata, com 13.170 casos; o câncer de mama em mulheres, com 4.830; o melanoma, com 3.860; e o linfoma, com 2.560 casos, segundo dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC) atualizados até 30 de junho.
As imagens registradas por Economopoulos naquele dia também acabaram adquirindo uma função que o fotógrafo não poderia imaginar quando apertou o obturador. Anos depois, algumas delas serviram para comprovar que pessoas que desenvolveram doenças associadas ao 11 de Setembro realmente estiveram na área contaminada.
Ao mostrar uma de suas fotografias, Economopoulos aponta para três homens cobertos de poeira caminhando pelas ruas de Manhattan. Um deles se chamava Frank.
“Ele morreu de câncer de pâncreas, que é um dos tipos de câncer associados ao 11 de Setembro. Anos depois, recebi uma ligação de um advogado que representava a família. Eles estavam entrando com um pedido de indemnização para vítimas, mas precisavam provar que ele tinha estado lá.”
A fotografia feita por Economopoulos ajudou a demonstrar exatamente isso.
Documentos recém-revelados também lançam nova luz sobre a extensão da contaminação na região do World Trade Center. Após o 11 de Setembro, moradores de Nova York receberam repetidas garantias de que era seguro respirar o ar nas proximidades das torres destruídas. Mas registos obtidos pelo The New York Times mostram que, dez meses depois dos ataques, autoridades de saúde ainda encontravam vestígios de amianto a até cerca de 800 metros do local.
Os documentos fazem parte de mais de 170 mil páginas de relatórios sobre qualidade do ar, registos de contaminação e correspondências entre autoridades municipais.
Segundo autoridades da cidade, o material permaneceu armazenado em caixas em um escritório municipal, fora do alcance do público por mais de duas décadas, e só foi descoberto no ano passado.
A documentação acrescenta uma nova dimensão às dúvidas sobre os riscos aos quais foram expostas as milhares de pessoas que trabalharam, viveram ou participaram das operações de resgate e recuperação na região.
Além das 2.753 pessoas mortas no World Trade Center no dia dos ataques, outras 9.677 morreram, nos 25 anos seguintes, de doenças relacionadas ao atentado, segundo dados do Fundo de Compensação das Vítimas, atualizados até 31 de Julho deste ano.
Para Economopoulos, as consequências que continuam aparecendo duas décadas e meia depois são também uma razão para preservar a memória do 11 de Setembro. “O que me incomoda é que, 25 anos depois, existe toda uma geração que não sabe o que aquele dia representou”, afirma.
Uma geração inteira nasceu depois das imagens que Economopoulos registrou com os rolos de filme que conseguiu naquela manhã. Ao relembrar o atentado, ele diz que preservar essa história significa não apenas recordar o horror provocado pelos ataques, mas também aqueles que morreram e as pessoas que arriscaram a própria vida para ajudar desconhecidos.
“Naquele dia, vimos o melhor da humanidade e também o pior dela.”
ANG/RFI