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Médio Oriente/Líbano acusa Israel de violar cessar-fogo horas após trégua na guerra com Hezbollah

Médio Oriente/Líbano acusa Israel de violar cessar-fogo horas após trégua na guerra com Hezbollah

(ANG) – O Líbano acusou Israel nesta sexta-feira (17) de violar o cessar-fogo de dez dias iniciado na véspera, após semanas de guerra com o Hezbollah que deixaram mais de 2.000 mortos e cerca de 1 milhão de deslocados.

 O acordo, anunciado por Donald Trump e em vigor desde quinta-feira (16), já dava sinais de fragilidade horas após começar.

 Emmanuel Macron alertou que a trégua “possa já estar sendo enfraquecida”, enquanto moradores retornam a áreas devastadas no sul do país e na periferia de Beirute.

A acusação do Líbano de que Israel violou um cessar-fogo recém-iniciado no sul do país tornou-se o eixo central de uma situação altamente volátil, marcada por desconfiança imediata, denúncias cruzadas eum contexto regional mais amplo de gerra envolvendo também o Irã e os estados Unidos.

O Hezbollah libanês disse nesta sexta-feira (17) estar “com o dedo no gatilho” em caso de violações israelenses.

O cessar-fogo de dez dias entre Israel e o Líbano entrou em vigor à meia-noite desta sexta-feira, após ter sido anunciado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A trégua foi estabelecida depois de mais um dia de confrontos intensos entre o exército israelense e o Hezbollah, grupo xiita libanês apoiado pelo Irã, com combates que se estenderam até os últimos minutos antes do início oficial do acordo.

Poucas horas após a entrada em vigor do cessar-fogo, o exército libanês afirmou que Israel já havia cometido “várias violações do acordo” no sul do país. A denúncia indica que o entendimento começou a se deteriorar quase imediatamente, colocando em dúvida sua efetividade prática.

A preocupação com essa fragilidade foi expressa também no plano internacional. O presidente francês Emmanuel macron declarou sua “preocupação” de que o cessar-fogo entre o Hezbollah e Israel, conforme anunciado na véspera por Donald Trump, “possa já estar sendo enfraquecido pela continuidade de operações militares”.

Macron também fez um apelo direto às partes envolvidas: “Peço segurança para as populações civis dos dois lados da fronteira entre o Líbano e Israel.

 O Hezbollah deve abandonar as armas. Israel deve respeitar a soberania libanesa e encerrar a guerra”.

O alerta francês se soma às tensões já evidentes no terreno. Mesmo com a trégua em vigor, a dinâmica militar não cessou de forma clara.

Até os últimos momentos antes do início do cessar-fogo, o Hezbollah continuava reivindicando ataques contra o norte de Israel e contra o exército israelense em território libanês, o que evidencia o nível de hostilidade persistente entre as partes.

No plano local, o impacto humano da guerra é imediato e visível. Moradores do sul do Líbano e da periferia sul de Beirute começaram a retornar para suas casas devastadas.

Em meio à destruição, alguns expressam alívio e até senso de resistência. “Felizmente, estamos voltando para casa e somos vitoriosos apesar dos bombardeios”, afirmou Mohammad Abou Raya, de 35 anos.

Ele também ressaltou o apego ao território, mesmo diante das perdas materiais: “Mesmo que não encontremos nossas casas, o importante é voltar para nossa terra”.

Na periferia sul de Beirute, uma das áreas mais atingidas pelos bombardeios israelenses, o cenário é de destruição generalizada. Muitos prédios foram reduzidos a escombros, e moradores voltam para avaliar os danos após semanas de deslocamento.

“Íamos todos os dias para um lugar diferente, porque não conseguimos vaga em um abrigo”, relatou Insaf Ezzeddine, que retornava de moto com o marido e a filha.

Ao descrever a situação de sua casa, ela afirmou: “Nossa casa foi muito danificada pelos ataques, mas graças a Deus houve o cessar-fogo e espero que a guerra acabe”.

Apesar do início da trégua, a população civil retorna mesmo diante de alertas das forças israelenses, que pediram que moradores evitassem voltar a áreas ao sul do rio Litani, afirmando manter presença na zona de fronteira.

Essa discrepância entre orientações militares e decisões da população revela tanto a urgência humanitária quanto a fragilidade do controle sobre o território.

O contexto em que o cessar-fogo foi firmado ajuda a explicar sua instabilidade.

O acordo ocorre após cerca de um mês e meio de conflito direto entre Israel e o Hezbollah, que deixou mais de 2.000 mortos no lado libanês, segundo autoridades de saúde. Além disso, aproximadamente um milhão de pessoas — cerca de um quinto da população do país — foram deslocadas, de acordo com dados das Nações Unidas.

Esse conflito, por sua vez, está inserido em uma crise regional mais ampla. O Líbano foi arrastado para a guerra no início de Março, quando o Hezbollah passou a atacar Israel em apoio ao Irã, após uma ofensiva israelense-americana contra território iraniano no fim de Fevereiro.

Nesse cenário, o cessar-fogo também tem uma dimensão diplomática estratégica. A trégua foi uma das condições estabelecidas por Teerã para dar continuidade às negociações com os Estados Unidos, com o objetivo de alcançar um fim duradouro para o conflito regional.

No plano político, as reações ao acordo revelam tanto apoio quanto condicionantes importantes. O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, classificou o cessar-fogo como uma oportunidade de “paz histórica”, ao mesmo tempo em que reiterou a exigência de desarmamento do Hezbollah como condição prévia.

Do lado do grupo libanês, a adesão ao acordo também não é incondicional. O deputado Ibrahim Moussaoui afirmou que o Hezbollah respeitaria a trégua “desde que haja uma interrupção total das hostilidades contra nós e que Israel não se aproveite disso para realizar assassinatos”.

Enquanto isso, os esforços diplomáticos continuam. Donald Trump afirmou ter conversado com o presidente do Líbano, Joseph Aoun, e com Benjamin Netanyahu, declarando que Israel e o Líbano haviam concordado com um cessar-fogo de dez dias.

No entanto, segundo as informações disponíveis, o presidente libanês recusou-se a manter diálogo direto com o primeiro-ministro .

Paralelamente, seguem as negociações mais amplas envolvendo Estados Unidos e Irã, com mediação do Paquistão.

Uma primeira rodada de conversas realizada em Islamabad não resultou em acordo, mas novas tratativas estão em preparação. Trump declarou ainda que os dois países estão “muito próximos” de um entendimento e afirmou que Teerã teria aceitado ceder seu urânio enriquecido — informação que não foi confirmada imediatamente pelo governo iraniano.

Diante desse quadro, a acusação do Líbano de violações israelenses ao cessar-fogo não apenas coloca em xeque a eficácia imediata da trégua, como também levanta dúvidas sobre a viabilidade de avanços diplomáticos mais amplos.

 A manutenção ou o colapso desse acordo de dez dias pode ter implicações diretas não só para a população civil afetada, mas também para o equilíbrio estratégico de toda a região. ANG/RFI/AFP

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