EUA/Canadá acusa EUA de ‘violação explícita’ de tratado comercial após tarifas adicionais de 50%
(ANG) – O presidente norte-americano, Donald Trump, assinou nesta segunda-feira (20) um decreto que impõe uma sobretaxa de 50% sobre produtos canadenses, provocando a reação mais dura de Ottawa desde a criação do Acordo de Livre Comércio entre Estados Unidos, México e Canadá (USMCA, na sigla em inglês).
O primeiro-ministro Mark Carney acusou Washington de violar o tratado e prometeu retaliação equivalente, ampliando a tensão comercial no bloco norte-americano. As tarifas de 25% impostas pelos EUA ao Brasil devem entrar em vigor amanhã.
A decisão de Trump reacende disputas antigas e coloca o governo norte-americano em confronto direto com dois parceiros centrais do comércio regional. Para Carney, a medida representa uma quebra explícita das regras que estruturam o USMCA, tratado que substituiu o antigo Nafta.
Carney afirmou que o Canadá “tem o direito de adotar medidas equivalentes” e que elas já foram acionadas, embora não tenham sido detalhadas. A acusação de violação do USMCA é o gesto diplomático mais contundente possível dentro do bloco, pois implica que Washington está descumprindo compromissos multilaterais que os próprios EUA negociaram.
Ottawa diz ter apresentado propostas para resolver o impasse e afirma estar disposta a intensificar negociações.
A nova tarifa atinge itens variados, como vinhos, tacos de hóquei e cimento, além de produtos que circulam no âmbito do USMCA. Setores considerados estratégicos, como energia, pesca e minérios críticos, foram excluídos da medida.
A Casa Branca sustenta que o Canadá adota práticas “discriminatórias” contra mercadorias norte-americanas e afirma que Ottawa é, ao lado da China, um dos poucos países que retaliaram iniciativas dos EUA para “reequilibrar” a balança comercial.
Na sexta-feira (17), Trump havia ameaçado impor novas tarifas ao Canadá, alegando que a fumaça dos incêndios florestais no país vizinho deteriorou a qualidade do ar no nordeste dos EUA.
A declaração ampliou o desgaste diplomático e foi seguida por críticas de autoridades canadenses, que acusam Washington de usar questões ambientais como justificativa para pressões comerciais.
A Casa Branca também criticou o boicote a bebidas alcoólicas vindas dos Estados Unidos, adotado por várias províncias canadenses. Segundo Washington, o Canadá retirou produtos alcoólicos dos EUA de suas prateleiras, ampliou o acesso de bebidas europeias ao mercado interno e impôs limites à importação de veículos norte-americanos fabricados por empresas que transferiram parte da produção para outros países.
O representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, disse que o decreto assinado por Trump”faz o Canadá prestar contas” por práticas consideradas injustas.
Segundo ele, as medidas canadenses afetam setores sensíveis e distorcem a concorrência no bloco norte-americano. Greer afirmou que Washington continuará monitorando ações de Ottawa e que novas medidas não estão descartadas.
As tarifas adicionais de 25% impostas pelos EUA ao Brasil entram em vigor nesta quarta-feira (22) e foram anunciadas após uma investigação de um ano conduzida sob a Seção 301 da legislação norte‑americana.
O governo dos EUA afirma que o Brasil adota práticas “injustas” em comércio digital, serviços de pagamento, propriedade intelectual, combate à corrupção e desmatamento ilegal, justificando a decisão como resposta direta a essas políticas.
Os produtos brasileiros afetados incluem móveis, etanol, máquinas, calçados, açúcar e outros bens manufaturados. Para evitar impacto direto sobre consumidores e empresas norte-americanas, Washington manteve isentas grandes exportações brasileiras, como carne bovina, café, laranja, suco de laranja, aeronaves e peças de aeronaves.
A Casa Branca afirma que a medida busca pressionar setores industriais considerados estratégicos.
A entrada em vigor das tarifas contra o Brasil amanhã reforça o movimento de endurecimento comercial adotado pelo governo norte‑americano e amplia o alcance da ofensiva que, nesta semana, passou a mirar simultaneamente dois parceiros centrais do comércio regional. ANG/RFI/AFP