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França/Impacto climático agrava desigualdade de gênero, dizem ONGs que pressionam por financiamento antes do G7

França/Impacto climático agrava desigualdade de gênero, dizem ONGs que pressionam por financiamento antes do G7

(ANG) – Durante muito tempo relegado a segundo plano, o impacto das mudanças climáticas na desigualdade de gênero agora é tema de alertas de ONGs que, às vésperas da cúpula do G7, em Junho, na França, lamentam a discrepância entre os anúncios políticos e o financiamento efetivo.

“As mudanças climáticas são sexistas”, afirma Mathilde Henry, da CARE França. “Elas aceleram os riscos enfrentados pelas mulheres, multiplicam” e “quando as secas atingem, quando as colheitas falham, são as mulheres que comem por último e em menor quantidade”.

Atualmente, 47,8 milhões de mulheres a mais do que homens sofrem de insegurança alimentar no mundo, segundo a Ação Contra a Fome (ACF), para quem a desigualdade de género é tanto “causa quanto consequência da fome”.

O aumento das temperaturas também afeta sua segurança. Cada aumento de 1ºC na temperatura global está associado a uma alta de 4,7% na violência doméstica, de acordo com um estudo de Abril de 2025 da Spotlight Initiative, uma aliança entre a União Europeia, as Nações Unidas e o governo mexicano.

Eventos climáticos extremos, como as inundações em Bangladesh, resultam em aumentos documentados na violência de género e no número de casamentos de crianças, destaca Henry.

No entanto, a inação em relação às mudanças climáticas pode levar até 158,3 milhões de mulheres e meninas adicionais à extrema pobreza até 2050, de acordo com o Panorama de Género 2025 da ONU Mulheres.

Nesse contexto, organizações estão utilizando a cúpula do G7 para tentar influenciar a resposta dos governos a essa questão.

Embora a França, que está na presidência do G7 este ano e tem adotado uma estratégia de diplomacia feminista para o período de 2025 a 2030, ONGs apontam que, na prática, houve uma redução da ajuda internacional e denunciam seus impactos negativos.

Em 2025, a ajuda oficial ao desenvolvimento (AOD) concedida por membros e associados do Comité de Assistência ao Desenvolvimento totalizou US$ 174,3 bilhões. O montante representa uma queda de 23,1% em comparação com o ano anterior — a maior contração anual já registada, segundo a OCDE.

Alemanha, Estados Unidos, Reino Unido, Japão e França respondem por 95,7% da redução total da ajuda oficial ao desenvolvimento.

Neste contexto, o Fundo de Apoio às Organizações Feministas (FSOF), considerado “a iniciativa mais emblemática da diplomacia feminista francesa”, sofreu um impacto significativo em seu financiamento, enfatiza a Plan International France.

“Estamos enfrentando um ataque à linguagem, um ataque ideológico e um ataque financeiro que sequer está sendo combatido pelos países que defendem a igualdade”, comenta Léa Cros, da ACF.

“A linguagem diplomática é uma coisa. Mas essa linguagem precisa ser colocada em prática. E, neste momento, até mesmo doadores europeus que podem defender a igualdade de género, como a França, estão causando um enorme terramoto financeiro” ao reduzirem seus financiamentos.

Esses cortes têm repercussões diretas na continuidade das operações de programas de ONGs internacionais, dezenas dos quais estão sendo encerrados, mas também em organizações locais que atuam na linha de frente e em milhões de beneficiários. “Infelizmente, tudo isso se traduz em mortes crianças fora da escola, casamentos infantis, etc.”, enumera Michelle Perrot, da Plan International França.

Para tentar conter esses fenómenos, especialistas de países em desenvolvimento defendem a participação dessas mulheres nas políticas públicas.

Além da vulnerabilidade aos riscos climáticos, essas mulheres são fundamentais para soluções de adaptação, principalmente na conservação da natureza e na agricultura. “As mulheres não são apenas vulneráveis.

Se receberem apoio, podem se tornar agentes de mudança”, argumentou Hoang Thi Ngoc Ha, pesquisadora vietnamita especializada em soluções baseadas na natureza e transversalidade da perspectiva de género na adaptação climática, em uma colectiva de imprensa antes da reunião do G7 sobre meio Ambiente, no final de Abril.

Ela também destacou a importância das doações de ONGs direcionadas a associações locais, que possibilitaram, por exemplo, a concessão de microcrédito a mulheres, o desenvolvimento de programas em aldeias e a melhoria da renda de agricultoras.

Além disso, as mulheres de comunidades indígenas ainda são “quase sistematicamente excluídas” dos órgãos internacionais de tomada de decisão, segundo uma delas, Gladys Yolanda Guamán Casillas. Essa especialista equatoriana em agroecologia fez um apelo para que “os governos de todos os países do mundo” sejam “forças motrizes para que sejamos ouvidas”.

ANG/RFI/ AFP

 

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