Cabo Verde/Especialistas alertam para riscos da obsessão com alimentação e exercício
(ANG) – A preocupação excessiva com a alimentação e a procura de um corpo perfeito podem transformar hábitos saudáveis em comportamentos compulsivos, com impacto na saúde mental, física e social, alertam especialistas ouvidos pela Lusa.
Psicólogos, endocrinologistas e médicos do desporto salientam a importância da alimentação saudável e do exercício físico para a saúde, mas chamam a atenção para os riscos do excesso de treino, da restrição alimentar e da pressão exercida pelas redes sociais, sobretudo entre os jovens.
“A obsessão pelo corpo, por exercício físico e por comer de forma saudável pode causar sofrimento e prejudicar a saúde física, mental e social, portanto, a saúde como um todo”, alertou Miguel Morais Coutinho, presidente da Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses.
Segundo o psicólogo, um dos sinais de alerta é a perda de flexibilidade na alimentação e na rotina de exercício físico que passam a ser marcados por “um conjunto de regras extremas”.
Explicou que “o exercício físico deixa de ser prazeroso e começa a ser gerador de ansiedade” quando a rotina é interrompida ou quando os objetivos definidos não são cumpridos.
Por outro lado, o tempo dedicado ao planeamento das refeições e à organização dos treinos aumenta, reduzindo a disponibilidade para o trabalho, o lazer e as relações sociais.
“As ideias que todos temos de uma alimentação saudável e de ter um corpo saudável fazem todo o sentido até um determinado limite. Quando este é ultrapassado nas várias dimensões, então, podemos estar no âmbito de um problema”, sublinhou.
A influência das redes sociais e a valorização da imagem corporal contribui para esta realidade. Miguel Morais Coutinho considerou que a exposição constante a conteúdos que promovem determinados padrões físicos e estilos de vida pode dificultar o reconhecimento do problema.
“Como é que eu vou achar que tenho um problema quando depois tenho este aplauso social”, questionou.
Segundo o psicólogo, o fenómeno afeta mais os jovens, por estarem mais expostos à influência das redes sociais, mas também atinge outros grupos, como desportistas, profissionais de saúde ou figuras públicas, que devido à exposição do seu trabalho têm exigências de controlo do corpo, nomeadamente na alimentação.
Nos casos mais extremos, surgem comportamentos associados à ortorexia (preocupação obsessiva com a alimentação considerada saudável) e à vigorexia, caracterizada pela procura compulsiva de exercício físico e de uma determinada imagem corporal.
A ansiedade, a baixa autoestima, experiências de `bullying` ou situações traumáticas relacionadas com a imagem corporal podem aumentar a vulnerabilidade a este tipo de comportamentos, assim como com perturbações alimentares, como anorexia e bulimia, referiu.
Miguel Morais Coutinho disse ter a perceção de que há mais pessoas a procurar ajuda clínica, mas, em muitas situações, são incentivados por familiares, amigos ou companheiros que consideram que aquele comportamento é excessivo.
“As pessoas não são felizes a viver este processo. Este ciclo de preocupação, rigidez e compulsão é muito forte, e sair destas amarras é bastante complexo”, sublinhou.
Mas os riscos não se limitam à saúde mental. A presidente da Sociedade Portuguesa de Endocrinologia, Diabetes e Metabolismo (SPEDM), Paula Freitas, alerta que o excesso de exercício físico, sobretudo quando associado a restrições alimentares, pode provocar alterações hormonais importantes e comprometer o desenvolvimento dos mais jovens.
“O exercício físico e a alimentação saudável são muito bem-vindos e as pessoas devem ter uma vida saudável. Não podemos é cair nos extremos. Ou seja, tudo na vida precisa de moderação”, defendeu.
Segundo a endocrinologista, o chamado `overtraining` (excesso de exercício físico) tem “um impacto menos bom” na saúde das pessoas e, quando se junta com restrição alimentar, pode ter repercussões, nomeadamente endócrinas, neuro-hormonais, aumento dos níveis de cortisol e na massa óssea e muscular, sobretudo quando não existe recuperação adequada.
Alertou ainda que “um exercício muito intenso em idade jovem, antes da maturação sexual, até pode fazer com que aquelas jovens não atinjam essa maturidade sexual nem o crescimento que tinham a possibilidade de atingir”.
Paula Freitas destacou também a síndrome de deficiência relativa de energia no desporto (RED-S) que pode aumentar o risco de lesões, comprometer a recuperação física e reduzir o desempenho desportivo, contrariando precisamente os objetivos que muitos atletas procuram alcançar.
“Tal como os medicamentos, o exercício também deve ser prescrito em termos de tipo, intensidade e duração”, afirmou, salientando o papel dos fisiologistas do exercício físico na definição de programas de treino seguros e ajustados.
A Sociedade Portuguesa de Medicina Desportiva (SPMD) partilha destas preocupações, mas sublinha que “o treino físico sistemático é um fator de promoção da saúde física e mental em todas as idades”.
“Quando a frequência, o volume e intensidade das cargas de treino sem recuperação adequada acontece durante períodos de tempo excessivo, surgem sintomas físicos e mentais lesivos da saúde e bem-estar” como dores musculares e articulares prolongadas, perturbações do sono e alterações no peso corporal e do apetite.
Segundo a SPMD, pode ainda instalar-se “um quadro psicológico de instabilidade emocional”, com ansiedade e apatia, dificuldade de concentração e memória, podendo evoluir para um estado depressivo, além do possível aumento da frequência cardíaca em repouso, alterações hormonais conducentes à diminuição da atividade do sistema imunológico e diminuição da capacidade de recuperação após lesões.
Alerta ainda para a importância de identificar precocemente os sinais de alerta e a adoção de medidas para evitar “danos mais graves” para a saúde, como a redução temporária da intensidade e volume dos treinos, a promoção de uma alimentação equilibrada, a melhoria da qualidade do sono e um regime de treinos seguros.
Embora não disponha de dados de evidência científica que permitam afirmar o papel das redes sociais e da cultura `fitness` no favorecimento de comportamentos obsessivos ligados ao exercício físico em idades cada vez mais precoces, a SPMD considera que “essa realidade existe” e justifica “uma reflexão séria de todos os profissionais de saúde, pais, professores e treinadores”. ANG/Inforpress/Lusa