Venezuela/Socorristas correm contra o tempo para salvar últimos sobreviventes de terramotos
(ANG) – Mais de 72 horas após os tremores de magnitude 7,2 e 7,5 que atingiram o norte da Venezuela na quarta-feira (24), equipes de busca e resgate de pelo menos 17 países atuam em um país em crise, com um sistema de saúde em estado precário.
O tempo é crucial para encontrar sobreviventes: os socorristas sabem que a probabilidade de encontrar pessoas com vida diminui a cada dia.
No norte do país, os tremores deixaram um cenário de devastação, com inúmeros prédios desabados, especialmente em La Guaira. É ali que o gramado do principal estádio de beisebol abriga, desde sexta-feira (26),equipes de resgate do mundo inteiro.
Suíça, Colômbia, Alemanha, Espanha: em campo, falam-se todas as línguas, e as Nações Unidas coordenam os trabalhos.
“Não podemos esquecer que as pessoas já estão há muito tempo sob os escombros. Com o calor que faz, há todos os problemas de desidratação, entre outros. Estamos realmente correndo contra o tempo”, lembra Fabien Walterio, chefe das operações da equipe suíça.
Para apoiar esse trabalho, uma pista do aeroporto de Caracas foi reaberta para receber aviões americanos que transportam ajuda humanitária.
“Com a chegada de equipes vindas de Miami, os Estados Unidos contam agora com cerca de 250 socorristas civis especializados mobilizados na Venezuela”, informou o Departamento de Estado americano na rede X.
“Em princípio, agora os corpos já não apresentam sinais de vida, mas, graças a Deus, às vezes ainda conseguimos encontrar sobreviventes”, afirmou um socorrista salvadorenho em Playa Grande, em La Guaira, cidade litorânea vizinha a Caracas.
Nas proximidades, um menino de 11 anos foi milagrosamente retirado com vida dos escombros, em Caraballeda. “Neste momento, cada vida é fonte de esperança para a Venezuela”, escreveu durante a noite na rede X a presidente interina da Venezuela,Delcy Rodriguez, ao compartilhar um vídeo do resgate.
Na véspera, a alegria tomou conta de La Guaira quando moradores salvaram um bebé. Em um vídeo publicado nas redes sociais, um homem se emociona às lágrimas enquanto segura a criança nos braços.
Por enquanto, o último balanço indica 1.430 mortos na tragédia, mais de 3,2 mil feridos e mais de 50 mil desaparecidos, segundo autoridades e a ONU. A organização alerta que esses números devem “aumentar consideravelmente”.
Vários estrangeiros estão entre as vítimas dos terramotos na Venezuela. O balanço inclui 28 portugueses ou luso-descendentes, além de 85 desaparecidos, ao menos nove espanhóis (e 152 desaparecidos), dois brasileiros, sete chineses, um chileno, um uruguaio e um ítalo-venezuelano. Autoridades desses países afirmam prestar assistência consular às famílias.
Apesar da mobilização crescente, a chegada das equipes de resgate atrasou. “O trajeto de Caracas até aqui foi interminável. O Google Maps indica 2h30, mas levamos 7h30. O caos foi causado por pessoas que queriam ajudar e, agora, vemos que a ordem voltou. Há uma espécie de normalidade se restabelecendo”, continua Fabien Walterio.
Paralelamente, a indignação da população cresce. No local, moradores denunciam a falta de apoio ou até a ausência do governo nas operações de resgate. A presidente Delcy Rodríguez foi vaiada na sexta-feira perto de um prédio desabado em um bairro de alto padrão de Caracas.
Voluntários venezuelanos, que chegaram com pás para tentar salvar vidas, tiveram no sábado o acesso negado à área mais afetada.
Como consequência, uma fila enorme se formava diante do Poliedro, a sala de espetáculos onde o governo distribui autorizações para voluntários que desejam acessar a área atingida, enquanto máquinas começam a retirar os escombros. Os danos são estimados em cerca de US$ 7 bilhões, o equivalente a 6% do PIB, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud).
Diante da indignação popular com a gestão da crise, Delcy Rodríguez destacou e agradeceu a ajuda internacional. Vinte e quatro países enviaram 521 toneladas de equipamentos, mais de 2.700 socorristas e 86 equipes com cães treinados para localizar vítimas, detalhou.
Quase sete milhões de pessoas foram afetadas pelos dois terramotos, estimaram as Nações Unidas no sábado.
A Venezuela é um país com risco sísmico, embora nenhum grande terramoto tenha sido registado desde 1997. ANG/RFI