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“A situação é extremamente preocupante” nas florestas da Guiné-Bissau

“A situação é extremamente preocupante” nas florestas da Guiné-Bissau

(ANG) – A situação das florestas da Guiné-Bissau foi considerada de “extremamente preocupante, pelo Engenheiro Florestal e antigo Diretor-geral das Florestas, Constantino Correia, em entrevista a RFI.

No Magazine Ciência desta estação emissora francesa, para além desta situação, a proteção do meio ambiente e mais concretamente sobre conservação das florestas neste país com uma biodiversidade riquíssima, mas com dificuldades em fazer respeitar as suas leis foi objeto de análise.

Em 2015 foi adoptada uma lei proibindo o abate de árvores e em particular a sua exportação. Em 2020, voltou-se atrás e tornou-se a permitir o abate de árvores mas manteve-se a proibição da exportação de madeira em troncos.

Constantino Correia descreve um cenário em que a cultura da castanha do caju e a utilização anárquica de madeira para a produção de carvão têm sido também sérios obstáculos à proteção da floresta.

O engenheiro florestal refere ainda que desde há alguns anos uma reforma nos serviços de proteção da floresta resultou num enfraquecimento da sua capacidade de fiscalização.

“Deixou de haver os guardas florestais que faziam o seguimento dos cortes”, começa por referir o engenheiro ao explicar que na senda de reformas neste sector “houve um recrutamento maciço de pessoas para a brigada florestal porque essa brigada tem como objetivo a madeira, nem tão-pouco a floresta” porque “há um ganho imediato nas conivências que se têm verificado no abate e no transporte do interior para Bissau, e de Bissau para os portos”.

Constantino Correia refere também que não se sabe concretamente em que fase se encontram os recursos florestais do país devido à ausência de inventários há décadas. “A situação é extremamente preocupante. Houve dois inventários que se fizeram, um em 1978, e depois repetiu-se cinco anos depois. Depois disto, nunca mais se fez” lamenta o antigo responsável estimando que a taxa de degradação da floresta da Guiné-Bissau poderia ascender a 80 mil hectares de área destruída por ano. Isto “num país onde não há uma política de reflorestação sistemática e regular, onde só se tira e onde essa degradação deve-se ao facto de termos um sistema de agricultura itinerante, corte e queima, e há uma pressão muito grande que o cajueiro está a provocar sobre o espaço florestal”, denuncia ainda o especialista.

“Os sucessivos aumentos de quantidade de exportação da castanha de caju são feitos pelo aumento de desmatação das florestas para a obtenção campo para a produção agrícola” refere o engenheiro sublinhando que apesar disso “a produtividade dos cajueiros é extremamente baixa. Temos uma produtividade que varia entre 300 e 400 quilos por hectare, até 500 quilos por hectare, na melhor das hipóteses pode ir até 600 quilos, mas é muito raro. Praticamente voltamos ao tempo da pré-história, da colecta. Colher, ensacar e exportar, sem aproveitar nada da matéria orgânica. Está a haver alguma transformação mas é bastante pouco, porque havendo transformação local, permitiria a criação de vários postos de emprego”, refere ainda Constantino Correia que por outro lado denuncia o desempenho de antigos responsáveis políticos relativamente à fixação de preços de venda do caju. “Tínhamos membros do governo que eram exportadores ou compradores de castanha de caju e são eles que estabeleceram o preço”, afirma

“A Guiné-Bissau é conhecida como um país da biodiversidade mas corre sérios riscos de vir a deixar de ser porque a monocultura de caju está inclusivamente a invadir as zonas protegidas” revela o engenheiro florestal que por outro lado também aponta o dedo à utilização de madeira para a produção de carvão. “A venda de lenha e carvão são das principais fontes de rendimento de uma grande percentagem da população” indica o estudioso ao alertar para a urgência de se encontrar atividades alternativas para estas populações.

“É quase imperativo pensar nisso e agir rapidamente. Se nós pensarmos que 96% da nossa população usa como fonte de energia doméstica a lenha e o carvão, leva-nos realmente a pensar. Estão a utilizar madeiras nobres como ‘pau de sangue’ para fazer lenha e carvão, quando temos alternativas. Nas florestas do país, vê-se uma quantidade enormíssima de paus secos que podiam ser aproveitados para fazer essa lenha, mas pessoas dizem que os paus secos custam mais a rachar”, lamenta Constantino Correia que, por outro lado, também sublinha que há formas de simultaneamente proteger a floresta e melhorar a produtividade do sector do caju.

“Se nós ordenarmos os cajueiros, vamos aumentar a produtividade. Não precisamos de plantar mais um único cajueiro. Antes pelo contrário. É desbastando, aproveitando essa lenha que vamos tirar do desbaste que vamos dar às populações e, entretanto, pensar em espécies para a substituição das espécies florestais que podem ser utilizadas para madeira, espécies nobres”, diz o especialista. “O Estado tem que realmente olhar porque não podemos desprezar a quantidade de pessoas que dependem do caju e que dependem da floresta. Deve merecer uma atenção redobrada” conclui o engenheiro Constantino Correia. ANG/RFI

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