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Cabo Verde/ “Há um antes de 25 de Abril e um depois do 25 de Abril”, diz Pedro Pires

Cabo Verde/ “Há um antes de 25 de Abril e um depois do 25 de Abril”, diz Pedro Pires

(ANG) – O 25 de Abril abriu uma nova era para Portugal, mas também para as suas antigas colónias em África com as quais o regime salazarista estava em guerra havia mais de 10 anos.

Poucos meses antes, a Guiné-Bissau tinha declarado unilateralmente a sua independência, mas a luta não tinha totalmente terminado. Portugal não tinha reconhecido a Guiné-Bissau como Estado livre.

Pires, antigo presidente de Cabo Verde e um dos líderes da luta de libertação da Guiné e de Cabo Verde no seio do PAIGC, o 25 de Abril foi um marco importante para Portugal mas também para a descolonização ao abrir o caminho para a negociação.

“O 25 de Abril é dos acontecimentos históricos mais importantes que tiveram lugar em Portugal no século XX. Porque eu vejo nas minhas reflexões há um antes de 25 de Abril e um depois do 25 de Abril. Não será o primeiro caso, mas é o caso mais importante da história política de Portugal. No 25 de Abril, eu pessoalmente era membro da direcção do PAIGC e acompanhamos com muito interesse os acontecimentos, mas os acontecimentos não foram uma surpresa para nós, porque sabia-se que Portugal estava mergulhado numa grande crise, numa crise militar, numa crise política, numa crise económica e financeira, causados pela guerra colonial. Veja um caso interessante para se ter em conta que o chefe de Estado maior é o chefe adjunto do Estado-maior entraram em conflito com o poder político, com o Presidente da República e com o Governo nessa altura. Francamente, eu penso que o Governo e as outras instituições do Estado tinham perdido legitimidade e credibilidade. Portanto, estava aberto o caminho para uma mudança do regime” começa por considerar o antigo Presidente de Cabo Verde.

Para Pedro Pires, a guerra de descolonização então vigente havia mais de uma década e, em particular, os acontecimentos na Guiné-Bissau que tinha acabado de declarar unilateralmente a sua independência em Setembro de 1973 após derrotar o exército português no teatro de guerra, contribuíram para precipitar o 25 de Abril.

“Facilitaram, até porque muitos oficiais que lideraram o golpe de Estado de 25 de Abril tinham passado pela experiência da Guiné. Mas não só a experiência militar, mas também a experiência política. Porque o PAIGC era um caso especial do ponto de vista político e depois do ponto de vista militar. A guerra estava perdida na Guiné. Estava perdida e isso é reconhecido pelos historiadores militares portugueses, não estou a exagerar em nada. Com a introdução no teatro da guerra dos Mísseis Antiaéreos Estrela dois, o exército colonial perdeu a vantagem tecnológica que tinha sobre nós e criaram-se as condições para nós, do lado do PAIGC, conseguirmos novas vitórias e colocarmos o exército colonial numa situação extremamente complicada, que podia conduzir ao seu colapso, reconhecido até pelo Chefe de Estado-Maior e pelo Chefe de Estado-Maior Adjunto e por outros oficiais. Na verdade, a guerra na Guiné, as vitórias do PAIGC foram um factor que eu chamaria da aceleração da mudança de regime em Portugal e, diria mais, de aceleração da história política portuguesa”, considera o antigo Chefe de Estado.

Paralelamente, Pedro Pires julga igualmente que os jovens oficiais que protagonizaram o 25 de Abril contribuíram para também mudar o rumo da descolonização. Com efeito, pouco depois da revolução, encaminharam-se negociações entre os representantes do PAIGC e as novas autoridades portuguesas para estabelecer as modalidades da descolonização.

Apesar de esta perspectiva não ser uma evidência para todos em Portugal, nomeadamente o Presidente designado logo depois do 25 de Abril, António de Spínola, que preconizava a realização de um referendo sobre o futuro político da Guiné-Bissau e de Cabo Verde, Pedro Pires considera que os oficiais mais jovens que lideraram o 25 de Abril pesaram de forma positiva no desenrolar das conversações. 

“O 25 de Abril é um momento de ruptura em que fica para trás a política colonial e abrem-se as condições para uma nova política baseada na negociação com os movimentos de libertação. Essa é a grande mudança. Os líderes, particularmente os oficiais mais jovens. Não me refiro ao general Spínola, que não estava a facilitar as negociações, Mas os líderes mais jovens da revolução do 25 de Abril tiveram um papel importante nas negociações e tiveram uma visão mais inteligente, mais lúcida da situação e aceitaram a descolonização. Dois Aceitaram o diálogo com os movimentos de libertação. Portanto, a liderança jovem do 25 ou 25 de Abril em si, serviu para abrir as condições políticas para uma solução política das guerras. Portanto, também foi de grande importância para a facilitação e aceleração do processo que conduziu as negociações e a independência das antigas colónias. O papel importante do 25 de Abril foi de ter substituído a política colonial por uma nova política, chamemo-la a política do diálogo e da descolonização. Esse é o papel importante dos líderes e dos governantes do pós 25 de Abril. Nós devemos, eu acho, reconhecer-lhes esse mérito. Primeiro, o mérito da audácia. Veja a audácia dos oficiais que decidiram pela ruptura, em vez de continuar com o status quo, a mesma política e a mesma retórica política. Rompem com a retórica colonialista e abrem novas perspectivas. Vejamos nisso a lucidez, a inteligência e a coragem dos líderes da revolução do 25 de Abril” conclui o antigo líder independentista da Guiné e de Cabo Verde.

Um ano depois de ter declarado unilateralmente a sua independência, a Guiné-Bissau foi reconhecida como Estado soberano em virtude dos acordos de Argel concluídos em Agosto de 1974. No âmbito destes acordos, foi igualmente reconhecido o “direito do povo de Cabo Verde à autodeterminação e independência”. Uma independência efectivamente alcançada um pouco menos de um ano depois, em Julho de 1975.ANG/RFI

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