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Lisboa/Investigação liga Guiné-Bissau e Portugal para retraçar presença de populações escravizadas

Lisboa/Investigação liga Guiné-Bissau e Portugal para retraçar presença de populações escravizadas

(ANG) – Cacheu, na Guiné-Bissau, e Monte de Vale do Lachique, junto a São Romão do Sado em Portugal, estão a ser alvo de um projeto de investigação que quer aprofundar a correlação entre a circulação de pessoas escravizadas, o seu modo de vida e o ambiente envolvendo arqueólogos, historiadores e geólogos para retraçar os passos dos africanos que vieram de forma forçada para a Europa.

O que é que a antiga capital da Guiné-Bissau e um monte junto à aldeia de São Romão do Sado têm em comum? Por estes dois lugares passaram populações escravizadas desde o final do século XV. Conhecer melhor estas populações, mas também o impacto que tiveram nos respectivos ecossistemas é o objetivo do projeto   “Ecologias da Liberdade, materialidades d escravidão e pós-emancipação no mundo Atlântico” que junta arqueólogos, historiadores e geólogos para retraçar os passos dos africanos que vieram de forma forçada para a Europa.

O projeto é liderado por Rui Gomes Coelho, professor na universidade de Durham, no Reino Unido, que em entrevista à RFI descreveu o impacto ambiental do tráfico de pessoas, nomeadamente nas culturas locais, como o arroz, que poderá ter sido trazido para Portugal por populações escravizadas, uma hipótese que está a ser analisada pelos investigadores envolvidos nesta pesquisa.

“Decidimos escolher estes dois locais em função da presença de estuários, que são locais muito propícios para se recolher sedimentos que podem ser utilizados para este tipo de investigação. O que acontece também no caso de Cacheu na Guiné-Bissau e do Monte de Vale do Lachique, em Portugal, é que estes estuários estão ligados à emergência de um tipo de cultura agrícola que é muito importante neste período, que é o arroz. O arroz africano emerge na África Ocidental a partir da Idade Média e depois expande-se em direcção à costa, na região onde está Cacheu, e é possível que o arroz se tenha desenvolvido nessa época para alimentar o tráfico de pessoas. E, em Portugal, o arroz aparece no Sul de Portugal, não se sabe ainda quando, há pesquisadores que apontam para o século XVIII ou XIX e outros para o século XVI ou mesmo século XV, estando relacionado com o tráfico de pessoas que tinham conhecimentos e que os levavam consigo, nomeadamente sobre práticas agrícolas”, explicou Rui Gomes Coelho, detalhando que amostras dos sedimentos dos dois estuários estão agora a ser analisadas.

Em Cacheu as escavações decorrem junto à antiga casa comercial, onde está instalado o Memorial da Escravatura e Tráfico Negreiro, e já foram encontrados artefactos do início da ocupação portuguesa, enquanto em Portugal a investigação decorre em parceria com a Câmara Municipal de Alcácer do Sal e as escavações já mostraram a construção de um monte alentejano no final do século XV, que poderia ter trabalho escravo.

Este é um projeto que visa também saber mais sobre o quotidiano das pessoas escravizadas, já que há poucos registos documentais – com o site  Slave Vpyages a contabilizar pelo menos 12 milhões de pessoas escravizadas em diferentes rotas durante os últimos séculos – sobre estas pessoas.

“Quando pensamos em pessoas escravizadas, pessoas cuja humanidade era questionada nesse contexto, e o que a arqueologia acaba por fazer é uma espécie de aproximação sobre o que era a experiência vivida dessas pessoas, é encontrar o que as pessoas realmente tocaram, as coisas que deitaram fora, que comeram, a vida quotidiana. Estas coisas não têm um retrato, não apresentam uma fotografia, mas é o que de mais próximo conseguimos ter daquilo que foi a vida destas pessoas. Isto acaba por nos fornecer uma imagem mais afetiva do que foi a experiência destas pessoas”, indicou Rui Gomes Coelho.

Este é um trabalho feito em parceria não só do Memorial da Escravatura e Tráfico Negreiro na Guiné-Bissau, mas que em Portugal conta com as associações Djass – Associação de Afrodescendentes e a Associação Batoto Yetu Portugal.

“O envolvimento das comunidades tem a ver com o facto de este projeto ser comprometido com a nossa sociedade, é um pojeto científico sobre uma realidade passada. A partir do presente, olha para o passado e tenta dar corpo ao que acontece agora no presente. E temos de envolver os parceiros que de forma mais direta têm manifestado interesse e tentam responder a estas questões. E essas são as partes interessadas que refletem os legados deste grande processo histórico que é o tráfico de pessoas escravizadas”, detalhou o académico.

O projeto “Ecologias da liberdade, materialidades da escravidão e pós-emancipação no mundo Atlântico” vai durar até ao fim de 2024 e tem o apoio da National Geographic Society, a Rust Family Foundation, assim como a Fundação para a Ciência e Tecnologia de Portugal, e o Joukowsky Institute for Archaeology and the Ancient World da Universidade de Brown. ANG/RFI

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